O que o Dia das Crianças nos ensina sobre territórios

Recentemente, o Dia das Crianças nos convidou a refletir sobre o presente e o futuro da infância em nossos territórios. Ao participar esse ano do Encontro Nacional do Movimento Futuro Local, em São Paulo, facilitando conversas sobre cooperação e redes territoriais ao lado de lideranças como Tomás de Lara e Thiago Vinicius, uma pergunta permanece ecoando:

Por que seguimos buscando soluções para os territórios fora deles, quando muitas das respostas já existem dentro deles?

Durante décadas, associou-se desenvolvimento apenas a crescimento econômico e produtividade, definindo comunidades pelo que lhes falta, e não pelo que possuem. Como nos lembra Ailton Krenak, uma das grandes tragédias do nosso tempo é a crença em uma única forma legítima de prosperar.

Mas e se estivermos olhando para o lugar errado?

Essa provocação orienta nossa atuação na UP Lab e esteve na base da cocriação do movimento Brincar é Direito, fruto do trabalho em rede com parceiros, lideranças comunitárias, educadores e moradores. Partimos de uma premissa transformadora: crianças não são apenas beneficiárias de políticas públicas, mas protagonistas dos territórios onde vivem.

Quando uma criança brinca, ela revela pertencimento, vínculos e segurança social. Inspirados na pedagogia de Paulo Freire, escolhemos escutar antes de propor e construir antes de entregar. A metodologia do movimento nasceu no diálogo permanente com quem vive e cuida desses espaços diariamente.

O Brincar é Direito nos ensina que a transformação ganha potência quando o conhecimento local ocupa o centro das decisões. Os recursos mais valiosos de uma comunidade estão na confiança, na memória coletiva e na capacidade de cooperação — o que Milton Santos conceitua como o espaço vivido e experimentado por quem o habita.

Brincar é uma forma de ocupar o território, fortalecer a confiança comunitária e transmitir cultura. Quando uma criança pode brincar livremente no espaço público, isso sinaliza um ambiente social capaz de acolher, proteger e sustentar a vida — um dos indicadores mais profundos de resiliência territorial.

Em tempos de crises climáticas e esgotamento social, a principal inovação reside em recuperar nossa capacidade de cooperar. Ao fortalecermos o espaço público e as redes de cuidado, tecemos as bases para economias locais mais humanas e autônomas.

Essa conexão entre o brincar e o futuro local não é casual. Ao fortalecermos espaços públicos, vínculos de confiança e redes de cuidado, estamos, na prática, tecendo a base de economias locais vivas e resilientes. Quando uma comunidade se reconhece como produtora de seu próprio bem-estar, ela naturalmente inverte a lógica da dependência externa: o desenvolvimento deixa de ser algo que chega de fora e passa a ser algo que brota das trocas, do afeto e da valorização do que é nosso. Fortalecer o território é, portanto, fortalecer a própria engrenagem que sustenta economias mais humanas e autônomas.

O documentário Brincar é Direito, disponível no YouTube, Canal Futura e Globoplay, amplia essa mensagem ao propor uma reflexão essencial no mês das crianças: e se o futuro já estiver sendo ensaiado, todos os dias, nas praças, periferias e territórios que sabem cuidar e imaginar coletivamente?

Com a força e a mobilização alcançadas por esse projeto inspirador, desdobramentos práticos começaram a tomar corpo para além das telas. Exemplo disso é o Guia Um Novo Olhar sobre O Brincar, um material da IPA Brasil que contou com nosso apoio no desenvolvimento para sistematizar aprendizados, orientar práticas comunitárias e fortalecer políticas públicas voltadas ao desenvolvimento infantil nos territórios.

Rennê Nunes é CEO da UP Lab e idealizador do Movimento Brincar é Direito.

Referências 

FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987.

FREIRE, Paulo. Pedagogia da Autonomia: Saberes Necessários à Prática Educativa. São Paulo: Paz e Terra, 1996.

KRENAK, Ailton. Ideias para Adiar o Fim do Mundo. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.

KRENAK, Ailton. Futuro Ancestral. São Paulo: Companhia das Letras, 2022.

SANTOS, Milton. Por uma Outra Globalização: Do Pensamento Único à Consciência Universal. Rio de Janeiro: Record, 2000.

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