Artigo por Rennê Nunes, CEO da UP Lab e conselheiro do Sistema B Brasil

Sempre volto dos encontros do ecossistema de longevidade inquieto.

Não necessariamente porque saio com respostas. Muitas vezes é justamente o contrário: volto com perguntas maiores do que aquelas que levei.

Dessa vez não foi diferente. Talvez tenha sido ainda mais significativo.

Entre os dias 24 e 26 de setembro, a Bienal do Ibirapuera recebeu a 8ª edição do Fórum & Festival Longevidade, sob o conceito “Reimaginando Futuros”.

Estive ali de diferentes maneiras: reencontrando amigos, conhecendo pessoas, aprendendo com conteúdos e, especialmente, participando de duas conversas que me atravessaram.

E saí de lá pensando que talvez o maior desafio da longevidade não seja apenas viver mais.

Talvez seja reaprender a enxergar quem vive mais.

‍

O estranho paradoxo de envelhecer

‍

No primeiro painel, “Quem conta as histórias de uma vida longa?”, mediado por Rosângela Marcondes (It_Avó), conversei com Rita Almeida (Lab Humanidades/AlmapBBDO) sobre as narrativas que construímos — e reproduzimos — sobre uma vida longa.

No segundo, “Entre o Estereótipo e a Autenticidade: a representatividade etária na comunicação e publicidade”, entrevistei Amanda Cristina de Oliveira, pesquisadora das representações de pessoas idosas na publicidade.

Foi justamente nessa segunda conversa que Amanda trouxe uma informação que ficou reverberando em mim, dialogando também com estudos conduzidos por Rita:

pessoas mais velhas dizem não se reconhecer na publicidade.

Não é apenas uma percepção subjetiva. Pesquisas vêm mostrando essa distância entre a representação publicitária e a experiência real do público maduro.

Mas existe um paradoxo ainda mais profundo.

Quando essas mesmas pessoas são ouvidas, muitas também não se reconhecem como “pessoas mais velhas”.

Há algo poderoso — e desconcertante — nessa contradição.

Porque talvez ela revele que não estamos apenas diante de um problema de representação publicitária.

Estamos diante de um problema cultural.

O que uma sociedade jovencêntrica produz dentro de nós?

‍

O Brasil está envelhecendo rapidamente.

A proporção de pessoas com 60 anos ou mais praticamente dobrou entre 2000 e 2023, passando de 8,7% para 15,6% da população. Nas projeções do IBGE, essa parcela deverá chegar a cerca de 37,8% em 2070.

Ou seja: o envelhecimento não é um futuro distante.

Ele já está acontecendo.

Mas nossas cidades, nossas empresas, nossa publicidade, nossos produtos, nossos espaços de convivência e, sobretudo, nossos imaginários ainda parecem operar segundo uma lógica em que juventude é o centro.

Uma sociedade jovencêntrica não produz apenas anúncios que representam mal pessoas mais velhas.

Ela produz barreiras etárias.

Ela determina, muitas vezes silenciosamente, o que alguém pode desejar, vestir, trabalhar, aprender, consumir, criar, liderar ou experimentar a partir de determinada idade.

E talvez o mais profundo seja perceber que esse preconceito não está somente “lá fora”.

Ele também pode morar dentro de nós.

Quantas vezes alguém começa uma frase com:

“Na minha idade...”

para, em seguida, diminuir uma possibilidade antes mesmo de tentar?

Quantas vezes confundimos envelhecer com deixar de desejar?

Quantas vezes tratamos a experiência como passado, quando ela poderia ser matéria-prima para o futuro?

‍

O que precisamos deixar morrer?

‍

Uma das provocações que Rosângela Marcondes, que mediou nossa primeira conversa, trouxe para o painel foi justamente essa:

Quais práticas e crenças precisamos deixar morrer para que outras perspectivas sobre a longevidade possam florescer?

A pergunta ficou reverberando em mim.

Talvez precisemos deixar morrer a ideia de que juventude é sinônimo de futuro.

A ideia de que inovação é necessariamente novidade.

A ideia de que uma pessoa mais velha precisa parecer mais jovem para continuar relevante.

A ideia de que experiência pertence ao passado.

E, principalmente, a ideia de que podemos construir o futuro separando gerações.

Precisamos derrubar as barreiras etárias para praticar, de verdade, a intergeracionalidade.

Não como uma palavra bonita em um relatório.

Mas como prática.

Na criação.

No trabalho.

Nas cidades.

Nas relações.

Porque talvez uma das maiores riquezas de uma sociedade longeva seja justamente essa: ter mais gerações simultaneamente disponíveis para criar o futuro.

‍

Da Lab60+ à LABoo: honrar para poder reimaginar

‍

Essa reflexão me fez lembrar de um processo que vivi de perto pela UP Lab: a construção da plataforma de marca do Movimento LABoo (ex-Lab60+).

Foi um processo de cocriação que reuniu membros do Lab60+ e pessoas de múltiplas gerações, colocando diferentes experiências, repertórios e perspectivas em diálogo.

E uma das coisas que mais me mobilizou foi perceber que não se tratava de abandonar o que havia sido construído pelo Lab60+.

Era justamente o contrário.

Era honrar o que veio antes para poder enxergar o que ainda poderia vir.

Talvez essa seja uma das melhores metáforas para a longevidade.

Regenerar não é apagar.

É reconhecer o que existe, compreender o que nos trouxe até aqui e, a partir daí, criar novas possibilidades.

A própria 8ª edição do Fórum & Festival Longevidade me pareceu materializar isso: um novo capítulo de um movimento que vem ampliando sua proposta para conectar conteúdo, experiências, negócios, comunidade e inteligência sobre o futuro de uma sociedade mais longeva.

‍

E se a pergunta não for “quanto tempo ainda temos?”

‍

Uma das experiências que mais me chamou atenção na Bienal foi justamente Reimaginando Futuros, idealizada pelo Fred Luz e executada em parceria com o Edu Maluf.

A proposta nos convidava, a partir de recursos de IA generativa, a imaginar como estaremos nas próximas décadas, inclusive diante da possibilidade de chegar aos 100 anos.

Mas a pergunta que ficou comigo não foi exatamente sobre chegar aos 100.

Foi outra:

o que estamos dispostos a abrir mão para adicionar mais vida aos nossos dias, em vez de simplesmente adicionar mais dias à nossa vida?

Essa diferença é enorme.

Porque longevidade não deveria ser apenas uma equação de quantidade.

Mais anos não significam necessariamente mais vida.

Podemos viver mais tempo dentro dos mesmos preconceitos, das mesmas desigualdades, das mesmas cidades pouco preparadas, das mesmas relações de trabalho, dos mesmos padrões de consumo e dos mesmos imaginários.

Ou podemos usar o tempo adicional como oportunidade para reimaginar a própria vida.

E aqui apareceu também uma provocação importante da experiência com IA: por mais impressionantes que sejam as ferramentas, ainda precisamos do olhar humano para contextualizar, tensionar, editar e dar sentido ao que elas produzem.

Especialmente quando falamos de futuro.

A tecnologia ainda carrega matrizes culturais, éticas, estéticas e criativas muito marcadas por contextos dos Estados Unidos e da Europa. Sem repertório, diversidade e presença humana, corremos o risco de automatizar não apenas processos, mas também os vieses que já carregamos.

‍

Talvez seja disso que estamos falando quando falamos de regeneração

‍

Na UP Lab, temos preferido falar cada vez mais em regeneração.

Porque sustentabilidade, muitas vezes, ainda parte da pergunta:

Como fazemos para causar menos dano?

Regeneração acrescenta outra:

Como fazemos para aumentar a capacidade de vida?

Talvez seja exatamente essa a pergunta que a longevidade nos oferece.

Como aumentar a capacidade de vida de uma pessoa aos 50, aos 70, aos 90, aos 100?

Como aumentar a capacidade de vida de uma cidade que envelhece?

De uma organização?

De uma comunidade?

De uma sociedade inteira?

E talvez a resposta passe por algo aparentemente simples, mas profundamente transformador:

parar de tratar a idade como uma barreira e começar a tratá-la como repertório.

Uma pessoa de 30 anos carrega algo que uma pessoa de 70 não carrega.

Uma pessoa de 70 carrega algo que uma pessoa de 30 ainda não teve tempo de viver.

Uma pessoa de 90 carrega uma perspectiva que nenhuma inteligência artificial consegue simplesmente fabricar.

E quando esses repertórios se encontram — sem hierarquizar um sobre o outro — alguma coisa nova pode nascer.

‍

Não quero apenas viver mais. Quero que a vida ao meu redor possa pulsar cada vez mais.

‍

Talvez seja essa a inquietação que levo comigo depois desses encontros.

Não quero uma longevidade que apenas prolongue indivíduos.

Quero uma longevidade que amplie possibilidades.

Que derrube barreiras entre gerações.

Que reconheça experiência sem transformá-la em nostalgia.

Que permita que pessoas mais velhas sejam protagonistas de suas próprias narrativas.

Que faça a publicidade e comunicação enxergar pessoas reais, em toda a sua diversidade.

Que permita à tecnologia encontrar diferentes culturas, territórios e repertórios.

Que nos ajude a trocar a pergunta “como parecer jovem por mais tempo?” por perguntas muito mais interessantes:

O que ainda quero aprender?
O que ainda quero criar?
O que ainda quero transformar?
Com quem quero fazer isso?
E que mundo quero encontrar quando eu chegar lá?

Porque talvez o verdadeiro futuro da longevidade não esteja em descobrir como viver 100 anos.

Talvez esteja em descobrir como fazer com que esses 100 anos caibam dentro de uma sociedade que também saiba envelhecer.

E, para isso, vamos precisar de todas as gerações.

Não apenas para viver mais.
Mas para imaginar — e regenerar — juntos, os nossos próprios universos.

compartilhe

leia também

voltar